Amigo Velho (A Martins de Carvalho num dia dos seus anos)

Uma vez encontrmo-nos os dois Nesse mar da poltica; depois, Como diversa bssola nos guia, Cada qual foi seu rumo: todavia, Em certas almas nunca se oblitera A afeio de um companheiro antigo: Sou para vs por certo o que ento era; E eu, como ento na minha primavera, Abrao o venerando e velho amigo! Joo de Deus, in 'Campo de Flores'.

Attracção

Meus olhos sempre inquietos  Que posso até dizer, Só acham n'alma objectos Que os possam entreter; Meus olhos... coisa rara! Porque hão de em ti parar Como a corrente pára Em encontrando o mar!? E penso n'isto, scismo... Mas é tão natural Cahir-se no abysmo D'uma belleza tal!... Olhei!... Foi indiscreta A vista que te puz. A pobre borboleta Viu luz... cahiu na luz! Uma attracção mais forte Que toda a reflexão, (É fado, é sina, é sorte!) Me arrasta o coração.

Sempre!

Pensas que te não vejo a ti? Bom era! Gravei tão vivamente n'alma a dôce E bella imagem tua, que eu quizera Deixar de contemplar-te, só que fosse Um momento, e não posso, não consigo! Foges-me, escondes-te e que importa? Esculpes Mais fundo ainda os indeleveis traços! Realça-te o retrato! E não me culpes! Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!... Vejo-te sempre!... trago-te comigo!... João de Deus, in 'Ramo de Flores'.

Sympatia

Olhas-me tu Constantemente: D'ahi concluo Que essa alma sente!... Que ama, não zomba, Como é vulgar; Que é uma pomba Que busca o par!... Pois ouve; eu gemo De te não vêr! E em vendo, tremo Mas de prazer!... Foge-me a vista... Falta-me o ar... Vê quanto dista D'aqui a amar! João de Deus, in 'Ramo de Flores'  .

Cantigas

Quando vejo a minha amada Parece que o Sol nasceu; Cantai, cantai alvorada Ó avezinhas do céu. Nessas águas do Mondego Se pode a gente mirar, Elas procuram sossego... E vão caminho do mar. A rosa que tu me deste Peguei-lhe, mudou de cor; Tornou-se de azul-celeste Como o céu do nosso amor. Não me fales da janela, Que te não ouço da rua; Fala-me de alguma estrela, Que te vou ouvir da Lua. Dizes que a letra não deve Ser nunca miudinha; Mas grada ou miúda escreve, Que o coração adivinha.

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas aves que são os segredos da vida o que quer que cantem é melhor do que conhecer e se os homens não as ouvem estão velhos que o meu pensamento caminhe pelo faminto e destemido e sedento e servil e mesmo que seja domingo que eu me engane pois sempre que os homens têm razão não são jovens e que eu não faça nada de útil e te ame muito mais do que verdadeiramente nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse chamar a si todo o céu com um sorriso


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